
Acredito que o maior desejo do homem é atingir a eternidade, e viver muitos anos, a exemplo dos profetas do antigo testamento (Abraão, Isaac, Maomé, David) que passaram em muito as centenas de anos.
Entretanto, o ser humano na busca do conhecimento e superação, é muito mais ousado, não quer só viver a eternidade, mas ter consigo a juventude. E nem sabem que as linhas do rosto traçadas pela velhice, são a expressão mais fiel de cada dia vivido. Estas rugas representam a historia de cada um, que foram escritas em suas faces, são portanto a perfeita externalização de todas as conquistas, derrotas, alegrias e tristezas que cada ser humano já viveu.
Imaginem então que glória passar dos 100 anos, imaginem que benção é poder estar lúcido ao passar dos 100 anos e ainda poder contar histórias de quase 100 anos atrás, com a paciência de um contador de historias.
Pois bem, eu tenho o prazer de conviver com alguém que recebeu esta benção de Deus, meu avô materno: João Casimiro, como é conhecido, na cidade que adotou como sua, Serra Talhada.
Seu João é homem forte do sertão paraibano, nasceu na pequena cidade com nome de capital, Montevideu, mas foi no sertão pernambucano que construiu sua família, fez amigos e ficou conhecido.
Homem de feições simples, pessoa de boa índole, trabalhador e calmo, este é o perfil mais fiel de vô João.
Nasceu e sempre viveu na roça, lutando contra os incontáveis períodos de seca que viu sua terra passar. Nunca sentou no chão para brincar com qualquer um de seus netos, mas sabia, de seu jeito agradá-los, seja dando uma voltinha à cavalo, ou uma moedinha para comprarem pipocas.
Me lembro, com muito carinho e saudades de meu avó nos poucos anos que pude conviver quase que diariamente com ele. Não esqueço das “voltinhas” à cavalo que ele fazia questão de dar com todos os seus netos presentes na hora de sua partida para o sítio. Era realmente dedicado, pois andava cerca de 400mts, da frente de sua casa até o pátio da antiga estação de trem, puxando o seu eterno cavalo branco de crina preta, com cada um de seus netos em cima.
Tive o privilegio de viver meus 7 primeiros anos próximo a ele e nunca esquecei as vezes que assisti atenta a ordenha das vacas, e ao final com seu jeito cuidadoso, nos oferecer um copo de leite para crescermos forte, como dizia. E até mesmo das vezes que com grande satisfação nos incentivava a tirar o leite, sozinhos.
Grande foi minha euforia quando pude dar a voltinha à cavalo, sozinha, sem que ele segurasse a corda do cavalo, mas com ele caminhando pacientemente do lado e com sua voz terna me dizendo os comando que deveria tomar para poder dominar o cavalo.
Também, me lembro muito bem dos dias de férias que passávamos no sítio Açude Velho, vendo-o trabalhar no pasto, cortando palma para dar ao rebanho, e zelando dos seus animais com grande dedicação, e ainda, nos levando ao açude para nos ensinar a pescar, pois mesmo sendo menina, ele nunca fez distinção entre eu e os meus primos, apenas nos tratava com o cuidado de um avô e nos ensinava sobre a vida na roça.
Pois bem, tenho certeza que todos nós, seus netos temos muitas lembranças boas de seu João, principalmente de suas histórias intermináveis, onde nos contava de suas andanças de vaqueiro, de seus parentes, e até de sua visão do destemido Rei do Cangaço, quando este passou pelo sítio de seu pai.
Hoje, nós estamos rendendo graças ao nosso Deus, por tantos anos, tantas histórias, tantos ensinamentos e o amor que nos foi transmitido, mesmo sem nunca ser falado literalmente, mas foi sentindo com todos os cuidados.
São 101 anos de história e todas elas estão traçadas em sua face rude, não tendo nenhuma palavra escrita, já que não teve o prazer de conhecer nenhuma letra, mas fez questão que todos os seus 8 filhos estudassem, e hoje, tem netos e bisnetos, bacharéis ou conhecedores da escola vida, tenho certeza que seu João Casimiro está no lucro, como gosta de repetir desde que fez 70 anos, e sente o amor e o orgulho que todos nós temos por ele. (Foto: by Kátia Moreira - 2009)
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