Ontem ao deitar, fiquei relembrando minha infância e me embalei na nostalgia de finais de semanas fabulosos em Triunfo, mas que me trazem boas lembranças.
Sinto por não puder fazer meus filhos vivenciarem os bons momentos que tive aos 6 ou 7 anos de idade, quando passeava com meus pais e meu irmão, no "Sítio dos Macacos", em Triunfo (o nome era por conta da grande quantidade de macaquinhos que viviam na serra onde ficava o sítio).
Lá vivia meu tio-bisavô materno, "Tio Nequinho" e sua família. Era um sítio no topo de um despenhadeiro, onde do terreiro da casa se via todo o conjunto de serras e até o limite de Pernambuco e Paraíba. Eles tinham uma casa simples, rodeada de cercas feitas de pedras, muitas fruteiras e flores, e lá no terreiro (um grande calçadão) nos poucos dias de sol, "Tio Nequinho" colocava o café para secar para depois torrá-lo e moê-lo.
Triunfo, para quem não conhece é uma pequena cidade do interior de Pernambuco, que fica a 450km de Recife-PE, e está a 1.200m acima do nível do mar, sendo a região mais alta do estado (Pico do Papagaio). Hoje é uma cidade turística e compõe o "circuito do frio", roteiro de eventos do governo pernambucano, atraíndo inúmeros turistas pelas suas belezas naturais e pelo ecoturismo.
Bem, mas voltando aos meus devaneios de sonolência, me lembrei de como era bom enveredar pela mata fechada que compunha o sítio, e junto com minhas primas, brincar entre as árvores descobrindo a flora. Certa vez fiquei deslumbrada com a delícia da jabuticaba, e o quanto era engraçado aquela frutinha tão saborosa nascer grudada por toda árvore, eu nunca houvera experimentado fruta não exótica. Empanturrei-me de Jabuticaba e ainda levei um balde cheio delas para casa.
Ainda hoje, sinto o calor do fogão à lenha, da cozinha de "Tia Isaura", senhora pequenina que logo moça foi perseguida pelo Alemão Alzheimer. Mas, mesmo lutando contra este destemido e devastador inimigo, "Tia Isaura" sempre estava pronta para servir a quem chegasse em sua casa, pois sempre tinha um chazinho de ervas que nasciam ao redor de sua casa e aromatizavam o ambiente (camomila, erva-doce, hortelã, capim santo, etc), um cafezinho, um bolinho e seus deliciosos biscoitos cream cracker passados na manteiga (ainda sinto o cheiro dos biscoitos, no lanche da tarde).
Durante todo o dia, as crianças corriam de uma lado para o outro, em busca de brincadeiras, e vibrávamos quando algum adolescente nos contavam estórias de trancoso (terror), envolvendo homens, mulheres e crianças que haviam desaparecido nas matas ou nos cacimbões, pois lá haviam muitos destes, já que a água jorrava em muitas pedras, pois na região, ainda hoje, há grande quantidade de olhos d´águas. E isto tudo enchiam nossas mentes de euforia, medo e imaginação.
A noite era tudo mais tranquilo, principalmente porque a temperatura caia muito e todos ficavam ao redor da mesa, sentindo o calor do fogão que nunca parava de engolir a lenha. Recordo-me que certa vez, fiquei com tanto frio, que dormi enrolada com 4 cobertores de lã. Era tudo uma festa!
Hoje, aquelas crianças cresceram, perdemos o contato, meu tio-bisavô e sua esposa faleceram, suas netas e eu tomamos nossos rumos, longe daquele lugar fantasioso e cheio de boas recordações, e toda aquela alegria está apenas em nossas memórias. Fotos, são raras, acho que nem as tenho. Realmente tudo é apenas lembrança de momentos felizes.(Foto: by Kátia Moreira - 2000)